10 de outubro de 2026

Entrevistas

Topologia da Nova República

A crise da ordem política da redemocratização e a disputa pelo futuro do Brasil nas eleições de 2026

No dia 25 de outubro, os brasileiros vão às urnas para decidir quem será o próximo presidente do país. Flávio Bolsonaro, filho do ex-presidente que cumpre pena por tentativa de golpe de Estado, chegou ao segundo turno com 47,03% dos votos válidos, à frente de Lula, que registrou 45,16%. Mais uma vez, democracia e autoritarismo estão em jogo. O Congresso Nacional, por sua vez, bateu mais um recorde consecutivo de crescimento da direita e da extrema direita. Se reverter a tendência do primeiro turno e vencer a eleição, Lula terá diante de si um desafio histórico: encerrar sua carreira política no comando de um país com uma extrema direita consolidada e organizada, um Congresso ainda mais desfavorável e uma crescente tensão geopolítica que afasta o Brasil de vizinhos alinhados ao governo Trump e isola o país na resistência à “Doutrina Donroe”. 

Para reconstruir o percurso que levou o país à atual encruzilhada, Daniel Pavan, editor da Phenomenal World, entrevistou Marcos Nobre, professor de filosofia política da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), pesquisador do Centro Brasileiro de Análise e Planejamento (Cebrap) e diretor do Centro para Imaginação Crítica (CCI). Na conversa, Nobre retoma o conceito de pemedebismo, central à sua interpretação do sistema político brasileiro, e analisa o papel histórico do PT desde a redemocratização, a formação do que denomina Partido Digital Bolsonarista e os desafios que essa nova configuração impõe à democracia brasileira. No contexto das eleições de 2026, discute ainda as conquistas e os limites do terceiro governo Lula, as dificuldades da esquerda em formular um projeto de futuro e as implicações da reconfiguração geopolítica mundial para a soberania do país.

Entrevista com Marcos Nobre

Daniel Pavan: Antes de formular a ideia de um “Partido Digital Bolsonarista”, você desenvolveu o conceito de “pemedebismo” para explicar o funcionamento do sistema político brasileiro desde a redemocratização. O que é o pemedebismo e como esse fenômeno evoluiu ao longo de quatro décadas de democracia? 

Marcos Nobre: O pemedebismo está relacionado ao PMDB, naturalmente, mas não se confunde com o partido. É importante fazer essa distinção. Quando a ideia de presidencialismo de coalizão se consolidou como paradigma explicativo, percebi que ela não dava conta de aspectos essenciais da organização do sistema político brasileiro. Havia duas questões que me pareciam centrais: por que qualquer governo precisa de uma supermaioria no Congresso e de uma coalizão governamental tão ampla? E por que a grande maioria dos partidos apoia uma candidatura presidencial, mas, independentemente do resultado das eleições, acaba integrando o governo?

Essas características estão longe de ser óbvias. Comparativamente, em que outro lugar do mundo encontramos essa mesma combinação? Eram questões que sempre me chamaram a atenção, mas acabavam negligenciadas pelo paradigma do presidencialismo de coalizão. O conceito de pemedebismo surgiu, então, de um esforço de teorização do sistema político brasileiro que desse conta dessas particularidades.

Para entender como essas duas características se articulam, é preciso voltar à formação do Centrão, outro fenômeno fundamental da política brasileira. O Centrão começou a tomar forma já durante a Assembleia Constituinte, em 1987, como uma organização defensiva: uma coalizão que havia apoiado a ditadura militar, mas permanecia viva e organizada sob condições democráticas e, agora, reagia  à liderança das forças progressistas na segunda metade dos anos 1980. Quando falo em progressismo, não me refiro à esquerda propriamente dita, mas a uma aliança entre setores da esquerda e da direita que se recusam a se associar à extrema direita, à ditadura e ao autoritarismo. O Centrão nasce, portanto, como uma reação defensiva a essa liderança progressista. 

Há um aspecto interessante nessa trajetória. O PMDB, que dá nome ao fenômeno, é herdeiro do MDB, partido de oposição à ditadura militar. No entanto, o Centrão original, formado durante a Constituinte de 1987, contava com relativamente poucos integrantes do PMDB. A grande maioria vinha de partidos herdeiros da Arena, que havia sustentado o regime militar. Essa composição foi mudando ao longo do tempo, sobretudo depois da criação do PSDB, em 1988, a partir de uma dissidência do PMDB. O PSDB surgiu justamente para se diferenciar dos setores do partido que seus fundadores consideravam incapazes de dirigir o país, apresentando-se como uma alternativa de liderança política. Após a eleição de 1994, a última em que lançou um candidato à Presidência nesse período, o PMDB não apenas passou a integrar o Centrão, mas se tornou uma espécie de modelo para os demais partidos que o compunham. Consolidou-se como o exemplo por excelência de um partido disposto a negociar apoio parlamentar com qualquer governo.

Com a eleição de Fernando Collor, em 1989, o Centrão alimenta a expectativa de voltar ao poder, sobretudo quando o governo entra em crise. Essa perspectiva, porém, se desfaz em 1992, com o impeachment de Collor e a posse de Itamar Franco, que representa uma retomada da liderança progressista do processo de redemocratização. O Centrão entra, então, numa espécie de hibernação. Aceita a liderança progressista, mas passa a negociar as condições de sua própria sobrevivência política. Sua posição é, essencialmente, a seguinte: “aceitamos nos submeter a essa liderança desde que tenhamos condições de continuar nos reproduzindo dentro do Estado brasileiro.” Isso significa garantir acesso aos recursos necessários para manter e ampliar suas bancadas parlamentares, eleger senadores, governadores e assim por diante.

Naquele momento, o Centrão ainda não tinha esse caráter orgânico de hoje. Era, sobretudo, um conjunto de partidos unidos por essa lógica de atuação. E é justamente aí que entra o conceito de pemedebismo: ele designa o modo de operação do Centrão, uma forma de organização política baseada na necessidade de participar de qualquer governo, independentemente de sua orientação partidária. A partir de 1994, a disputa presidencial passou a se estruturar em torno de dois polos, PT e PSDB. Qualquer um dos dois que vencesse a eleição levava consigo esse conjunto de partidos, esse mar de PMDBs. O Centrão se organizou, assim, como um cartel de venda de apoio parlamentar.

DP: Você identifica na crise política que atravessou os governos de Dilma Rousseff um ponto de inflexão nesse arranjo. O que mudou, a partir de então, na relação entre o Executivo e o Legislativo?

MN: A sequência de quatro vitórias do PT nas eleições presidenciais colocou o Centrão diante de um problema: sua capacidade de barganha depende, em grande medida, da possibilidade de alternância no comando do Executivo. Afinal, esses partidos integram qualquer governo, independentemente de quem vença as eleições, mas é justamente a disputa entre diferentes forças políticas que lhes permite ampliar sua margem de negociação.

Esses partidos de tipo pemedebista dependem de duas condições fundamentais: acesso a recursos públicos e proteção contra a atuação da Justiça e da polícia. Mas, ao longo das duas décadas de auge do pemedebismo, entre 1994 e 2014, foram criados e fortalecidos diversos órgãos de controle e fiscalização. À medida que o PT, no governo, ampliava esses mecanismos, crescia também o risco de que a polícia e a Justiça batessem à porta do Centrão. Em 2014, quando Dilma Rousseff é reeleita, três fatores se combinam: a crise econômica, a crescente insatisfação do Centrão com a liderança petista e a Operação Lava Jato. Nessa conjuntura, o Centrão conclui que a única maneira de se preservar é derrubar a presidente e, a partir daí, adota uma estratégia deliberada para eliminar o PT da disputa pelo poder. Afinal, como não havia uma força política capaz de derrotar o PT nas urnas, esses partidos tendiam a ficar cada vez mais subordinados à liderança petista, perdendo sua capacidade de chantagem.

Em 2016, com o impeachment de Dilma Rousseff e a posse de Michel Temer, o pemedebismo assume diretamente o comando do Executivo. A estratégia era tirar o PT do jogo político e, a partir do governo, construir uma candidatura viável para a eleição seguinte. Mas havia uma contradição fundamental nisso. O pemedebismo pode fazer muitas coisas, mas não pode assumir diretamente o governo sem comprometer sua própria lógica de funcionamento. Se sua função é vender apoio parlamentar, como pode vender esse apoio a si mesmo? Essa contradição ajuda a explicar o fracasso retumbante do governo Temer, cuja aprovação estava em torno de 9% ou 10% às vésperas da eleição de 2018.

Mesmo assim, o Centrão acreditava ter conseguido inviabilizar o PT e esperava que, apesar da baixíssima popularidade do governo Temer, ainda fosse possível sair vitorioso da eleição de 2018, seja com uma candidatura própria, seja aderindo ao candidato vencedor. Mas as duas candidaturas que se mostraram competitivas foram justamente a do PT e a de Jair Bolsonaro. Para o Centrão, era uma situação inesperada: depois de todo o esforço para tirar o PT do governo, o partido continuava sendo uma das principais forças eleitorais do país. Nesse cenário, a grande maioria dos partidos do Centrão, senão sua totalidade, acabou aderindo à candidatura de Bolsonaro. Isso não significa, porém, que houvesse uma afinidade natural entre ele e o Centrão. Foi necessário construir um acordo político, que se consolidou sobretudo após o início da pandemia, quando Bolsonaro passou a enxergar com clareza o risco de sofrer um impeachment.

Ainda no segundo mandato de Rousseff, o Centrão iniciou um movimento de autonomização, particularmente a partir de 2015, com Eduardo Cunha na Presidência da Câmara e a criação das emendas impositivas. Durante o governo Temer, sobretudo sob a presidência de Rodrigo Maia na Câmara, ocorreu também uma mudança na articulação entre os partidos do Centrão. Eles passam a atuar de maneira mais coordenada, negociando entre si de forma orgânica e colegiada.

Essa articulação se mantém e se aprofunda quando Arthur Lira assume a presidência da Câmara e estabelece um acordo com Jair Bolsonaro. A ampliação das emendas impositivas, especialmente por meio do chamado orçamento secreto, reforça a autonomia do Legislativo em relação ao Executivo, ao mesmo tempo em que torna a distribuição dos recursos públicos extremamente opaca. Não era possível saber com clareza quem havia apresentado as emendas, para onde os recursos eram destinados ou quais valores estavam envolvidos. Para garantir sua sustentação política, Bolsonaro concedeu ao Centrão um grau de autonomia que esses partidos jamais haviam tido. Essa atuação coordenada do Centrão permanece até hoje. É claro que os partidos que o compõem competem entre si, sobretudo durante as eleições. Mas, encerrada a disputa eleitoral, eles se articulam para negociar conjuntamente a distribuição de poder.

DP: Apesar da derrota eleitoral de Jair Bolsonaro em 2022, o bolsonarismo se consolidou como uma força central do tabuleiro político brasileiro. A disputa pelo Executivo passou a se concentrar no PT e no bolsonarismo como as únicas opções eleitoralmente viáveis, mas que agora disputam diante de um Centrão reconfigurado.  Como esse novo arranjo altera a dinâmica do sistema político brasileiro?

MN: A configuração política de hoje é bastante distinta daquela que caracterizou o período clássico do pemedebismo, entre 1994 e 2014. Temos, de um lado, o PT, um partido de massas tradicional, profundamente enraizado na sociedade brasileira, com uma base de identificação partidária que chega a cerca de um terço do eleitorado. De outro, temos o bolsonarismo, que constitui uma espécie de partido de massas digital, liderado pela extrema direita e com o qual aproximadamente um quarto dos eleitores brasileiros se identifica.

À primeira vista, poderíamos imaginar que o Centrão simplesmente encontrou dois novos polos entre os quais negociar apoio parlamentar, reproduzindo a dinâmica anterior. Mas houve uma transformação fundamental. Em primeiro lugar, já não se trata propriamente de uma polarização, mas de uma divisão. A metáfora da polarização pressupõe a existência de um mesmo campo magnético, com dois polos opostos. O que temos hoje, porém, são dois campos distintos, inconciliáveis e incompatíveis entre si. É uma situação muito diferente da disputa entre PT e PSDB que estruturou o pemedebismo clássico.

A segunda diferença é que o Centrão conquistou uma autonomia em relação ao Executivo que não existia sob o arranjo tradicionalmente descrito como presidencialismo de coalizão. O presidencialismo de coalizão dependia de um desequilíbrio fundamental entre o Executivo e o Legislativo. O Executivo concentrava recursos muito superiores, o que obrigava os partidos no Congresso a formar coalizões com o governo para garantir sua reprodução política. Era essa assimetria que sustentava o funcionamento do presidencialismo de coalizão, ou do que chamo de pemedebismo clássico.

Hoje, porém, temos um Centrão que conquistou um grau muito maior de autonomia. A configuração do sistema político brasileiro mudou profundamente. De um lado, há dois partidos de massas que atuam em campos políticos distintos; de outro, o Centrão, que constitui uma força relativamente autônoma em relação a ambos. É claro que o Centrão continuará negociando com quem vencer as eleições, mas essa relação já não é de subordinação. Trata-se de uma negociação entre forças com maior independência entre si.

Isso ficou evidente durante o terceiro governo Lula. A base parlamentar do governo era, na prática, uma base de proteção contra o impeachment—atualmente, qualquer presidente precisa garantir, desde o início, um número de votos suficiente para impedir sua destituição. Na Câmara dos Deputados, isso significa contar com pelo menos 172 votos, o que exige uma base sólida de aproximadamente 190 a 200 deputados. Mas esse apoio não seria sequer suficiente para aprovar um projeto de lei por maioria simples, caso os 513 deputados estivessem presentes.

O que vemos, então, é um governo que conta com cerca de 190 ou 200 votos, mas consegue aprovar determinadas propostas com 390 ou 400. Essa diferença se explica pela atuação de um Centrão relativamente coordenado, que se soma à base governista conforme os acordos negociados. O Executivo já não negocia apenas com partidos isolados ou parlamentares individualmente, mas com um bloco partidário mais coeso, capaz de articular posições e negociar coletivamente.

A meu ver, essa é a grande questão sobre o futuro do sistema político brasileiro: diante dessas três forças, como poderá ocorrer uma nova reorganização política? Em 1988, quando Sérgio Abranches formulou o conceito de presidencialismo de coalizão, o Brasil atravessava um momento de redefinição institucional. Quase quarenta anos depois, estamos diante de um momento semelhante. Aquele arranjo se consolidou com o Plano Real, que não foi apenas um programa de estabilização econômica, mas também um projeto político. Ao mesmo tempo em que reorganizou a economia brasileira para adaptá-la à ordem neoliberal, estabeleceu as bases de uma configuração relativamente estável do sistema político. A conjuntura atual é muito diferente. Não por acaso, essa transformação coincide com a transição do capitalismo para uma ordem pós-neoliberal, cujos contornos ainda são incertos. O próprio prefixo “pós” expressa essa indefinição: é possível identificar tendências que apontam para a superação da ordem anterior, mas ainda não sabemos o que surgirá em seu lugar.

Se a democracia brasileira sobreviver e o sistema político passar por uma reorganização, ela terá necessariamente de partir desses elementos. Evidentemente, a existência de um partido de massas liderado pela extrema direita representa um risco enorme para a própria democracia. Mas, mesmo que seja possível isolar politicamente a extrema direita, o problema da reorganização institucional permanecerá, uma vez que as condições que permitiram a estabilização do sistema político anterior já não existem.

DP: Você descreveu transformações profundas na dinâmica partidária e eleitoral brasileira desde a redemocratização, além do esforço aberto do Centrão de inviabilizar eleitoralmente o PT. Como explicar sua resiliência eleitoral diante dessas mudanças? Desde que o PT assumiu o Executivo pela primeira vez, a disputa política passou a se organizar, em grande medida, em torno do apoio ou da oposição a ele, mais do que da identificação com outras candidaturas. O que explica essa capacidade do PT de estruturar a disputa eleitoral em torno de si, tanto pela identificação petista quanto pela mobilização do antipetismo?

MN: O PT é um caso praticamente único no mundo. Como explicar o surgimento de um partido de massas em 1980, quando, em toda parte, os partidos haviam se burocratizado, se convertido em organizações essencialmente eleitorais, voltadas quase exclusivamente à conquista de votos? Naquele momento, parecia que os partidos de massas haviam desaparecido. E, no entanto, surge o PT, um partido construído de baixo para cima que, em apenas quinze anos, se torna a principal referência da política brasileira. Não estou falando do sistema político, que, como vimos, obedece a outra lógica de organização, mas da política brasileira em sentido mais amplo.

É extraordinário não apenas que o PT tenha surgido nessas condições, mas que tenha conseguido se consolidar e alcançar tamanha projeção em tão pouco tempo. Trata-se de um fenômeno raro, de um partido com enraizamento real e profundo na sociedade brasileira. A partir de 1989, quando Lula chega ao segundo turno da eleição presidencial, e sobretudo quando se torna o favorito para a disputa de 1994, o PT passa a ocupar uma posição central na política nacional. É possível contar toda a história da redemocratização e da política democrática brasileira desde os anos 1980 a partir da trajetória do partido. O próprio antipetismo é uma expressão dessa centralidade: o PT se torna a principal referência em relação à qual os demais atores políticos se posicionam, seja a favor, seja contra.

O problema é que a existência de um partido de massas não se ajusta à tradição partidária brasileira, nem mesmo à dos partidos históricos de esquerda, como o PCB e o PCdoB. O sistema político que emerge da ditadura, inicialmente estruturado em torno de dois partidos e depois reorganizado em cinco, em grande medida derivados dos anteriores, não sabe muito bem como lidar com o PT. Trata-se de uma organização de natureza distinta, que não opera segundo a mesma lógica dos demais partidos. Surge, assim, uma tensão fundamental: de um lado, um partido com enorme força eleitoral, sobretudo nas disputas presidenciais, e com uma vida interna e um enraizamento social próprios; de outro, um conjunto de partidos organizados segundo uma lógica inteiramente diferente, sem a mesma estrutura de participação e mobilização.

Ao longo da década de 1980, o projeto do PT era construir um partido de baixo para cima, a partir de suas bases sociais. Do ponto de vista eleitoral, isso significava também formar maiorias legislativas por meio de um processo de organização e mobilização popular. Esse modelo, porém, foi abandonado depois que Lula chegou ao segundo turno da eleição presidencial de 1989. A partir daí, o PT passou a concentrar seus esforços na conquista da Presidência da República, invertendo sua estratégia: em vez de construir maiorias de baixo para cima, passou a buscar a reorganização da política brasileira de cima para baixo. Essa mudança de orientação coincide justamente com o momento em que o partido se consolida como a principal referência da política nacional.

Em 1994, Fernando Henrique Cardoso consegue derrotar Lula, que até então era o favorito à Presidência. Esse favoritismo foi fundamental para a estratégia de Fernando Henrique, que se apresentou às forças políticas tradicionais como a alternativa capaz de impedir uma vitória petista. Sua mensagem era, essencialmente, a seguinte: vocês podem desconfiar de mim, por minha trajetória intelectual e minha identificação anterior com a esquerda, mas tenho um plano de combate à inflação que pode me garantir o apoio popular necessário para vencer a eleição. Não por acaso, Fernando Henrique estabeleceu uma aliança com o PFL, herdeiro da Arena, partido de sustentação da ditadura militar. Era uma maneira de sinalizar aos setores conservadores que sua candidatura não representava uma ameaça e que ele não colocaria em prática as posições que havia defendido nas décadas de 1960 e 1970.

A partir daí, a disputa presidencial passou a se organizar em torno de dois polos, PT e PSDB. Mas, embora houvesse essa polarização eleitoral, era o PT que ocupava o lugar de principal referência da política brasileira. Era em relação a ele que as demais forças se posicionavam. Como discutimos anteriormente, a sequência de quatro vitórias presidenciais do PT acabou criando um impasse para o sistema político tradicional. O partido passou a adotar práticas que contrariavam o pacto pemedebista. 

Quando, durante o governo Dilma Rousseff, a presidente deixou de exercer controle sobre a Polícia Federal e não impediu a atuação do Judiciário e dos órgãos de fiscalização, os partidos que dependiam desse pacto passaram a se sentir ameaçados. Do ponto de vista dessas forças, o acordo havia sido rompido. Afinal, o pacto pemedebista não pressupunha apenas a distribuição de cargos e o acesso aos recursos públicos. Exigia também proteção contra as consequências jurídicas de práticas frequentemente ilegais, das quais esses partidos dependiam para garantir sua reprodução política. 

Há também outros elementos importantes nesse processo. Um deles é a tentativa dos governos petistas, especialmente o de Dilma Rousseff, de promover a reindustrialização do país. Essa política também tinha como objetivo reequilibrar a coalizão de forças econômicas e sociais que sustentava o governo. A partir do governo Fernando Henrique Cardoso, o neoliberalismo se consolidou no Brasil não apenas como um conjunto de políticas econômicas, mas como uma ordem que estabelecia os limites da ação governamental. Era possível se declarar contrário ao neoliberalismo, criticá-lo e propor alternativas, mas qualquer governo precisava operar dentro das regras dessa ordem. A margem de manobra para implementar políticas antineoliberais era, portanto, bastante limitada.

A consolidação dessa ordem foi acompanhada pela formação de uma coalizão de forças econômicas liderada não pela indústria de transformação, mas sobretudo pelo agronegócio. A indústria continuava integrando essa coalizão, porém em uma posição subordinada. Em torno do agronegócio, articulavam-se também outros setores, como o mercado financeiro, a mineração e a pecuária, que exerciam uma hegemonia não apenas econômica e política, mas também cultural. O projeto de reindustrialização de Dilma Rousseff buscava justamente alterar essa correlação de forças, fortalecendo a indústria de transformação e reduzindo a predominância do agronegócio e dos setores a ele associados. Isso significava desafiar a liderança da coalizão neoliberal, que reagiu à perspectiva de perder sua posição dominante.

Não estou discutindo se a política industrial de Dilma tinha ou não condições de ser bem-sucedida. Para essa análise, o que importa é compreender seu sentido político: tratava-se de uma tentativa de romper com a hegemonia do agronegócio na coalizão que sustentava a ordem neoliberal brasileira. Na minha interpretação, essa tentativa foi um dos fatores que levaram à destituição de Dilma Rousseff em 2016. Naquele momento, as forças políticas tradicionais concluíram que era necessário retirar o PT do governo. O partido, afinal, insistia em não operar segundo as regras estabelecidas pelo pacto pemedebista. E é justamente aí que se revela a profundidade de seu enraizamento social. Mesmo depois do impeachment de Dilma Rousseff e da prisão de Lula, sua principal liderança e uma das maiores lideranças populares brasileiras da segunda metade do século XX, o PT conseguiu chegar ao segundo turno da eleição presidencial de 2018. Isso demonstra a capacidade extraordinária de sobrevivência política de um partido que, apesar de todos esses acontecimentos, preservou sua base social e sua força eleitoral.

DP: Se o PT conseguiu preservar sua força eleitoral mesmo depois do impeachment de Dilma Rousseff e da prisão de Lula, o que explica a emergência do bolsonarismo como seu principal adversário? Em que medida a ascensão de Bolsonaro representa também o surgimento de uma nova forma de organização partidária no Brasil?

MN: Ficou claro, naquela altura, que não era possível simplesmente eliminar o PT da disputa política. Mas quem seria capaz de competir com ele? O PSDB, por exemplo, tinha uma estrutura partidária muito diferente. Era um partido cujas principais decisões, inclusive sobre candidaturas, podiam ser tomadas em reuniões de restaurante. Não havia nada parecido com os congressos, as disputas de teses e os conflitos internos do PT, em que diferentes correntes procuram influenciar os rumos do partido.

É nesse contexto que Jair Bolsonaro vence a eleição de 2018, apoiado em um capital político digital que vinha acumulando desde 2012. Bolsonaro foi o primeiro político brasileiro a perceber o potencial das plataformas digitais e a organizar sua carreira política em torno delas. Quando chegou à Presidência, portanto, já contava com uma base construída nesse ambiente. Durante seu governo, Bolsonaro conseguiu aprofundar a organização e a articulação dessa base digital, a ponto de transformá-la no que chamamos de Partido Digital Bolsonarista. No livro que publicamos recentemente, procuramos demonstrar que essa organização funciona efetivamente como um partido, embora não tenha registro formal, CNPJ ou a estrutura institucional de uma legenda convencional.

Temos, assim, o surgimento de um novo partido de massas no Brasil, mas de natureza muito diferente da do PT: um partido de massas digital, liderado pela extrema direita. Essa caracterização costuma enfrentar muita resistência. Afinal, estamos falando de uma organização que funciona como partido sem existir formalmente como tal, que tem características de um partido de massas e que, além disso, já nasce no ambiente digital. É muito difícil para um partido tradicional, mesmo um partido de massas como o PT, compreender o funcionamento de um partido digital. Isso porque há uma diferença fundamental entre atuar nas redes e operar em rede. Os partidos tradicionais tendem a enxergar o ambiente digital como uma ferramenta, um instrumento para desempenhar com mais eficiência as atividades que já realizam. Mas estamos falando de algo inteiramente diferente: outra forma de organização política, que opera segundo uma lógica própria.

Há também uma provocação histórica nessa caracterização. Quando surgiram os primeiros partidos clandestinos de massas, no século XIX, eles eram organizações anticapitalistas, que não tinham reconhecimento legal nem registro formal. Ainda assim, eram partidos de massas, com uma vida interna intensa e uma presença permanente no cotidiano de seus integrantes. Mantinham escolas, grupos de teatro, jornais e, mais tarde, emissoras de rádio. Organizavam associações locais e participavam da resolução de problemas concretos das comunidades. Esse foi o modelo dos partidos de massas de esquerda durante boa parte dos séculos XIX e XX. Hoje, temos um partido de massas digital, liderado pela extrema direita, que estabelece com sua base social um tipo de relação semelhante. Não se trata de uma organização que aparece apenas durante as eleições, mas de uma estrutura que mobiliza e engaja continuamente, integrando-se à vida cotidiana das pessoas. E essa presença não se limita à política em sentido estrito. Ela pode se manifestar em grupos de orientação sobre a criação dos filhos, comunidades de desempregados, associações religiosas e inúmeros outros espaços de sociabilidade. São funções que os partidos de massas desempenhavam no século XIX e que agora passaram a ser exercidas, em grande medida, por uma organização digital de extrema direita.

É a partir dessa transformação que precisamos compreender a reorganização do sistema político brasileiro. Hoje, temos três forças fundamentais: um partido de massas tradicional, de esquerda, que é o PT; um partido de massas digital, liderado pela extrema direita, que é o bolsonarismo; e um Centrão que conquistou um grau significativo de autonomia em relação a ambos. São esses os elementos que estruturam a nova configuração política brasileira.

DP: Que vantagens esse modelo de partido de massas digital oferece em relação aos partidos tradicionais e quais são as consequências dessa nova assimetria para a disputa política no Brasil?

MN: A competição entre esses dois partidos de massas é profundamente desigual. Ainda não sabemos se o modelo digital será predominante no futuro, se novos partidos passarão a surgir e se organizar exclusivamente nesse ambiente. É provável que prevaleçam formas híbridas, combinando estruturas tradicionais e digitais, como já vem acontecendo. O Partido Digital Bolsonarista, porém, é uma organização essencialmente digital, cuja atuação nas redes é permanente e marcada por uma enorme falta de transparência. Não sabemos quanto dinheiro circula nessa estrutura, quais negociações ocorrem fora dos espaços públicos das plataformas ou como se organizam suas relações internas. A isso se soma o papel crescente da inteligência artificial, que amplia enormemente a capacidade de coordenar milhares de bots e influenciar a circulação e a distribuição de conteúdo.

Mas há uma particularidade fundamental: embora sua organização seja digital, o bolsonarismo também opera no sistema partidário tradicional. Isso é possível graças às alianças que estabelece com os partidos do Centrão, especialmente com o PL, com o qual mantém uma relação preferencial. De todo modo, o bolsonarismo não se limita ao PL. Tem candidatos distribuídos por diversos partidos do Centrão, que podem migrar de uma legenda para outra conforme suas conveniências políticas. Isso lhe permite combinar as vantagens dos dois modelos de organização. Por meio dos partidos tradicionais, tem acesso ao fundo eleitoral, ao fundo partidário e aos recursos associados aos mandatos parlamentares. No ambiente digital, dispõe de mecanismos próprios de engajamento, mobilização, coesão, organização e hierarquia, tudo aquilo que caracteriza o funcionamento de um partido.

Esse é um dos grandes problemas da configuração política atual. Não se trata apenas da coexistência de três forças distintas—um Centrão relativamente autônomo, um partido de massas tradicional e um partido de massas digital—, mas do fato de que elas são profundamente heterogêneas. Como estabelecer uma competição em condições de igualdade entre um partido de massas tradicional e outro que opera segundo essa lógica digital?

A esquerda brasileira encara, portanto, um grave desafio organizativo. Se não conseguir enfrentá-lo, corre o risco de ser novamente excluída da disputa política por uma extrema direita que dispõe de formas de organização e mobilização muito distintas das suas. O terceiro governo Lula nos ofereceu uma demonstração das dificuldades desse arranjo: um governo de minoria, obrigado a negociar com um Centrão relativamente autônomo e a enfrentar a oposição feroz do Partido Digital Bolsonarista. Nessas condições, a margem de ação do Executivo, e particularmente da Presidência da República, é extremamente limitada. O que a Presidência ainda pode fazer é impedir a vitória da extrema direita, o que, evidentemente, é fundamental. Descrevi recentemente a atual candidatura de Lula como a última linha de defesa do Brasil. É esse, a meu ver, o papel que ela desempenha hoje.

DP: Ao voltar à Presidência em 2023, após mais de uma década, Lula encontrou um sistema político profundamente transformado. Como você avalia seu terceiro governo diante da nova correlação de forças no Congresso, das pressões do mercado e das mudanças nas condições de governabilidade? O que essa experiência revela sobre o cenário eleitoral de 2026?

MN: Acho que o terceiro governo Lula é um milagre. E por uma razão muito simples: Lula governa em minoria. Pode parecer contraditório, já que sua coalizão reúne formalmente 13 partidos. Mas isso se explica pelo processo de relativa autonomização do Centrão, que passou a funcionar como um bloco capaz de construir posições comuns e negociar coletivamente com o Executivo. O governo já não negocia apenas com partidos individuais, mas com uma força parlamentar relativamente independente. Conseguir concessões desse núcleo pemedebista, que já não opera segundo a lógica clássica do pemedemismo, tornou-se extremamente difícil.

A isso se soma a tarefa de reconstruir o país após o desmonte promovido pelo governo Bolsonaro. Não por acaso, o lema dos dois primeiros anos foi “União e Reconstrução”. Mas, ao final desse período, as pesquisas começaram a revelar uma nova demanda: depois da metade de um mandato dedicada à reconstrução, qual seria o projeto para o futuro? Lula havia vencido a eleição por uma margem estreita, de cerca de 1,8 ponto percentual, apoiando-se sobretudo em duas mensagens: a memória dos avanços de seus governos anteriores e a defesa da democracia diante da ameaça autoritária. Nos primeiros dois anos, cumpriu boa parte dessa promessa. As instituições reagiram à tentativa de golpe, programas sociais foram reconstruídos, novos foram criados (embora sem representar uma ruptura com a lógica das políticas anteriores). O problema é que a reconstrução, por si só, não oferece um horizonte de futuro. O governo chegou, então, a um impasse: depois de recuperar o que havia sido destruído, o que viria a seguir? Houve uma mudança de slogan, mas não a apresentação de um projeto substancialmente novo.

A partir daí, o governo começou a perder fôlego. Sua aposta era que bons indicadores econômicos seriam suficientes para garantir a reeleição. Essa lógica sempre esteve presente nos governos Lula e tem fundamento: em um país marcado por desigualdades tão profundas, mesmo avanços modestos na redistribuição de renda e riqueza representam conquistas importantes. Mas essa estratégia parece ter encontrado seu limite. Já não basta apresentar bons resultados econômicos ou recuperar políticas construídas desde os anos 2000. É preciso oferecer uma perspectiva de futuro, algo que o terceiro governo Lula ainda não conseguiu fazer. E isso é particularmente grave porque a extrema direita, ao contrário, oferece uma visão de futuro.

A esquerda brasileira enfrenta, portanto, dois desafios simultâneos: um problema organizativo, por continuar estruturada segundo modelos tradicionais em um mundo cada vez mais digital, e um problema de projeto político. Em vez de apresentar um horizonte novo, permanece presa à promessa de recuperar e aperfeiçoar um passado que considera bem-sucedido.

E esse impasse não é exclusivo da esquerda brasileira: é um problema da esquerda mundial. Em um cenário dividido entre o que chamo de uma “direita sem medo”—sem medo de perder a democracia, as liberdades ou as garantias institucionais—e uma coalizão progressista ou antiautoritária, esta última ainda não conseguiu construir uma imagem convincente de futuro. Nos Estados Unidos, a derrota de Kamala Harris em 2024, como representante do governo Biden, levou essa disputa para dentro do Partido Democrata. Setores da esquerda passaram a defender que, embora continuem integrando a coalizão antiautoritária, é preciso disputar abertamente sua agenda e deslocar o partido à esquerda. Esse movimento já produziu resultados nas disputas internas do partido, com vitórias de candidaturas identificadas com os Socialistas Democráticos da América. Mas seu alcance eleitoral ainda está por ser testado. As eleições de meio de mandato serão decisivas: se essas candidaturas não obtiverem bons resultados, a ala moderada poderá responsabilizar a esquerda pelas derrotas. O que está em jogo é justamente a capacidade da esquerda de deixar de se definir apenas pela defesa da democracia e pela recuperação do passado, passando a oferecer um projeto próprio de futuro.

É isso que a esquerda que disputa espaço dentro do Partido Democrata está dizendo: temos respostas para os problemas da população, e essas respostas passam pelo socialismo. Não por acaso, em seu discurso de vitória, Zohran Mamdani, eleito prefeito de Nova York, citou Eugene Debs, uma das principais lideranças do Partido Socialista americano no início do século XX. É uma maneira de reivindicar essa tradição política e apresentá-la como alternativa para o futuro. 

No Brasil, ainda não chegamos a esse ponto. A coalizão progressista ou antiautoritária permanece, em grande medida, presa à defesa do que existia antes. Defendemos o Supremo Tribunal Federal porque ele cumpriu sua obrigação de responsabilizar os envolvidos em uma tentativa de golpe. Mas como transformar a defesa do STF, com todas as suas contradições, em um projeto político? Da mesma forma, quem deseja recuperar o funcionamento do sistema político dos anos 2000? Esse é o impasse da esquerda: defender a democracia é indispensável, mas não basta para construir um horizonte de transformação.

É nesse contexto que considero extraordinário o que Lula conseguiu realizar em seu terceiro mandato. Houve avanços na tributação dos super-ricos, ainda que modestos, ampliação da isenção do Imposto de Renda e criação de novos programas sociais. Sobretudo, foi possível recuperar a sensação de que o Brasil continua sendo uma democracia. Nada disso é trivial, mas tampouco é suficiente para oferecer uma perspectiva de futuro. As pesquisas mostram que uma parcela importante da juventude não vê Lula como representante desse futuro.

E há, ainda, outro problema incontornável: em algum momento, haverá um pós-Lula. No bolsonarismo, a disputa sucessória já começou. A escolha de Flávio Bolsonaro como candidato desencadeou conflitos intensos entre diferentes lideranças, como Michelle Bolsonaro, Nikolas Ferreira e Silas Malafaia. Essas tensões diminuíram à medida que Flávio se consolidou nas pesquisas como um candidato competitivo. Isso não significa que a disputa esteja definitivamente resolvida, mas mostra que o bolsonarismo já começou a enfrentar a questão de sua sucessão. A esquerda brasileira ainda precisa fazer o mesmo. É difícil imaginar que Flávio Bolsonaro, independentemente do resultado desta eleição, não continue sendo uma figura importante na disputa de 2030. Já a sucessão de Lula permanece inteiramente em aberto. Portanto, além de governar um sistema político composto por forças heterogêneas, que não se articulam como no período de 1994 a 2014, a esquerda precisa enfrentar a questão da liderança do PT, o maior partido de massas do país. Esses desafios já estão presentes no terceiro governo Lula e continuarão nos próximos anos. Um eventual quarto mandato precisaria enfrentá-los, sobretudo apresentando um projeto de futuro. Mas teria de fazê-lo sob restrições muito severas.

DP: Como a reconfiguração geopolítica, especialmente com o retorno de Trump, afeta as possibilidades de atuação do Brasil? E de que maneira as eleições de 2026 representam uma disputa sobre a inserção internacional do país?

MN: A dimensão geopolítica é decisiva. O terceiro governo Lula coincidiu com uma transformação profunda da ordem internacional, que já estava em curso desde 2016, mas se tornou muito mais evidente com o segundo mandato de Donald Trump. Nessa reconfiguração, os Estados Unidos buscam impor ao Brasil uma posição subordinada, especialmente como fornecedor de matérias-primas estratégicas para a transição verde. A proposta estadunidense tende a combinar investimentos e garantias de proteção militar em troca do acesso a esses recursos naturais e de um alinhamento político mais amplo. É esse projeto de subordinação que, a meu ver, a candidatura de Flávio Bolsonaro representa. 

Do outro lado, temos um projeto que já se manifestou no terceiro governo Lula e que deverá continuar em um eventual quarto mandato: resistir a essa subordinação e preservar algum grau de autonomia nacional. Mas há um problema fundamental. O Brasil não dispõe de capacidade militar suficiente para garantir sua própria defesa e, diante da formação de dois grandes blocos neoimperiais, um em torno dos Estados Unidos e outro da China, tampouco pode simplesmente escolher um deles como garantidor de sua segurança.

A alternativa mais promissora seria construir uma coalizão com outros países para preservar essa autonomia. O Brasil poderia negociar o acesso a seus recursos estratégicos, mas em condições que assegurassem duas contrapartidas fundamentais: garantias de proteção militar e capacidade de absorver e desenvolver as tecnologias necessárias à transição verde. Não se trata de produzir internamente todos os equipamentos, mas de evitar que o país dependa inteiramente de tecnologias importadas. Isso inclui, necessariamente, a inteligência artificial. Portanto, o que está em jogo nesta eleição é também o lugar que o Brasil ocupará na nova ordem geopolítica. E essa escolha ocorre em um contexto de riscos crescentes de conflitos militares, especialmente diante do avanço internacional da extrema direita.

Considerando todas essas restrições, continuo achando que o terceiro governo Lula foi um milagre. Conseguiu preservar um grau mínimo de soberania nacional, manter o funcionamento da democracia e sustentar políticas redistributivas indispensáveis em um país marcado por desigualdades abissais. Não tenho dúvidas de que um eventual quarto mandato enfrentaria condições ainda mais difíceis. É nesse sentido que descrevo a atual candidatura de Lula como a última linha de defesa do Brasil.

Mas não podemos reduzir toda a discussão à eleição. É fundamental reunir as forças democráticas que se recusam a estabelecer alianças com a extrema direita, sem perder de vista os desafios estruturais que discutimos até aqui. E enfrentá-los não é responsabilidade exclusiva do governo ou do presidente. Precisamos levar esse debate a sério, tanto no interior da coalizão progressista e antiautoritária quanto no campo da esquerda. Isso exige construir uma perspectiva de futuro que considere três grandes ameaças: a perda da democracia, a possibilidade de guerras generalizadas e o colapso ambiental. Precisamos distinguir o que é viável, o que é difícil e até mesmo o que parece impossível, mas merece ser pensado. Uma imagem de futuro não pode prescindir do realismo, mas tampouco pode se limitar a ele. Quando reduzimos nosso horizonte ao que parece imediatamente possível, acabamos formulando um programa muito mais estreito do que as próprias possibilidades históricas permitem.

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